Numa manhã ensolarada no Distrito Federal, recebo o
telefonema de minha mãe. A voz vinha mansa demais. Disse que tinha feito uma
mamografia e, depois, uma biópsia. Tudo meio escondido de nós. Contou como quem
fala de algo trivial, quase burocrático. Acrescentou que o resultado sairia em
dois dias, numa segunda-feira.
Foi o tom. Não as palavras.
O tom.
Ali, todos os alertas se acenderam em mim. O corpo
reconheceu antes da razão. E, num segundo, revisitei o processo do meu pai:
dois cânceres — pulmão e cérebro — em 2017 e 2021. A memória não veio como
lembrança; veio como aviso.
Sem dizer nada a ela, não fiz perguntas, não dramatizei.
Apenas agi. Botei o carro na estrada. Não podia permitir que ela recebesse o
resultado da biópsia sozinha. Algumas notícias exigem presença antes de
explicação. Dirigi cerca de 2.300 quilômetros, atravessando estados,
pensamentos e silêncios, até chegar a tempo. O volante firme, a mente em
vigília e o coração rezando sem palavras.
Na estrada, aprendi de novo que amor não avisa: ele se move.
Corte de cena.
Agora é 22 de janeiro de 2026.
Recentemente vim passar uns dias na minha cidade natal para
ajudar nos cuidados com a minha mãe. E notei que, desde então, o tempo perdeu o
calendário e ganhou uma partitura musical. Já não sou regido por terças ou
domingos; sou regido pelo ritmo dos curativos, pelas pausas entre idas e vindas
a médicos e hospitais, pelo compasso dos exames e pelo adagio dos
retornos. Aprendi a ler o silêncio dela: se é cansaço, se é dor ou se é apenas
a vida pedindo um repouso mais longo. O relógio na parede continua seu
tique-taque burocrático, mas quem compõe as horas agora sou eu.
Cuidar de alguém gravemente doente cria um tempo próprio:
suspenso, circular, feito de respirações contadas. A vida vira uma novela sem
sinopse, escrita minuto a minuto, sem ensaios. Planejar torna-se um luxo
dissonante. Tudo depende da harmonia do corpo dela amanhã… ou daqui a duas
notas.
Nesse tempo estranho, a gente vai se ausentando de si quase
sem perceber. As necessidades entram em modo silencioso e a agenda congela. Aos
61 anos, vivendo minha própria longelescência, vejo-me regendo a vida dela, aos
87. Somos o retrato de um fenômeno social cada vez mais comum: longevos
cuidando de longevos. Uma legião de “jovens idosos” que adia a própria
existência para sustentar a de quem lhes deu a luz. São vidas que entram em
modo de espera, sonhos que estacionam na garagem com o motor ainda quente.
E nem todos os longevos se deixam cuidar, como naquele mundo
ideal das “propagandas da Família Margarina”. Têm os mais resistentes, os que ainda
estão elaborando o luto, os que resistem aos tratamentos, os ingratos, os mais
ácidos, os que ao enfrentar emmedos e dificuldades da doença, acabam por devolver
isto numa carga pesada sobre os cuidadores, e equipe de saúde.
Marquei minha volta pra cá. Eu seguirei pra Brasília na
terça, dia 27, e vou voltar em fevereiro. Adiei o carnaval com a família, que
estava programado. O confete dará lugar ao algodão, e tá tudo bem. O importante
é continuar com “o blco na rua”. Mesmo que seja a rua do cuidar.
O jardineiro aqui de casa acaba de chegar. Mamãe tinha
agendado com ele, quando ainda a roda-viva de sua vida não tinha girado. Ele chegou
como um mensageiro de um tempo em que as plantas eram a nossa maior
preocupação. Quando disse a ela que aproveitaria minha ida à feira para trazer
mudas de gerânios e repor os que haviam morrido na jardineira, vi algo que
nenhum remédio produz: um lampejo de motivação. Ela sorriu. Um sorriso breve,
mas com brilho nos olhos — provocado pelas cores que ainda virão. Por um
segundo, o jardim dela foi maior que a doença.
Lembrei-me do lançamento do livro do meu amigo Hayton.
Interagi com muitos longevos naquela noite e quase todos estavam mergulhados
nessa mesma sinfonia invisível. A vida vai nos moldando e nos coloca exatamente
onde a melodia mais precisa de nós. O palco, muitas vezes, é o corredor de um
hospital. Foi ali que defendi o respeito aos acompanhantes — esses verdadeiros
maestros das sombras. Eles dormem em cadeiras desconfortáveis e perambulam
atrás de uma nota mínima de esperança, enquanto seus projetos pessoais se
apagam lentamente, como letra de música sem melodia.
Nessa rotina, cuidador e cuidado acabam se parecendo.
Passamos a viver de pequenas e grandiosas alegrias: uma veia puncionada de
primeira, uma sopa aceita, uma ida ao banheiro que funcionou, uma noite
finalmente dormida. Pequenos milagres cotidianos. Cuidadores são seres
solitários. Carregamos o peso das decisões e a culpa pelos caminhos que
desafinam. Por isso, aprendi uma regra dura e simples: se o maestro quebra a
batuta, a música para. Quem cuida do cuidador? Se não for ele mesmo, esqueça.
Para sustentar o outro sem se abandonar por completo, é
preciso encontrar brechas de luz no cotidiano.
A pausa é música. O silêncio do café permite que a próxima
melodia seja afinada.
Aceitar o coro. Se alguém oferecer uma mão, aceitar. O espetáculo não precisa
ser um solo absoluto.
A escutadeira particular. Dialogar com o que me devolve a mim mesmo, seja a
minha jiboia crescendo lenta no canto da sala, seja um parágrafo escrito sem
pressa.
A botânica do afeto. Às vezes, a cura começa no replantio de um gerânio e no
brilho de um sorriso recuperado.
Hoje é quinta-feira. O tempo me soprou que é dia de bode na
barraca de Dona Socorro, lá na Feira da Prata. Vou escapar rapidinho. Vou
buscar o perfume das flores para ela e o sabor do bodinho com cuscuz para mim.
Vou temperar de alegria o meu próprio chão para continuar sendo o amparo dela.
Faria tudo de novo. Cuidei de papai, cuido de mamãe. Como
diz Vinícius, a vida só se dá pra quem se deu. Mas dar-se não é apagar-se.
Cuidar é resistência, é cansaço honesto, é o amor em sua forma mais nua.
O verdadeiro aprendizado talvez seja este: ser o abrigo dela
sem deixar desmoronar o meu. Mesmo que o tempo continue sem calendário, hoje
ele terá cheiro de terra molhada e gosto de feira. Não desaparecer inteiro —
apesar de tudo — é a minha vitória final.
Epílogo
No fim, aprendi que amar alguém nesse território não é
vencer a doença, nem controlar o desfecho. É sustentar a dignidade do caminho.
É permanecer quando tudo convida à fuga, é escolher presença quando o futuro se
recusa a colaborar. A vida pode até perder o calendário, os planos e as
planilhas, mas não perde o essencial: a possibilidade de sentido. Se amanhã o
imprevisto mudar a música, eu sigo. Enquanto houver cuidado, ainda há amor. E
enquanto houver amor, mesmo cansado, a vida continua merecendo ser vivida —
nota por nota, passo por passo, sem desaparecer inteiro.
Contribuição pessoal – O jogo dos sete erros do cuidador
Depois de cuidar de papai e agora cuidar de mamãe, percebi
que o cuidado também ensina por tropeços. Aprendi mais errando do que
acertando. Por isso, deixo aqui — sem pretensão acadêmica, mas com honestidade
vivida — o que chamo de o jogo dos sete erros que cuidadores precisam
tomar cuidado para não cair. É um jogo silencioso, sem tabuleiro, jogado no
dia a dia, quando ninguém está olhando.
Erro 1 – O super-herói invisível
Achar que precisa dar conta de tudo sozinho. Não pede ajuda, não delega, não
reclama. Só cai duro depois. Amor não exige onipotência. Herói que não dorme
vira vilão de si mesmo.
Erro 2 – O mutismo estratégico
Engolir o próprio cansaço “pra não preocupar ninguém”. Silenciar tristeza,
raiva e medo como se fossem fraquezas. Emoção reprimida não evapora; ela
fermenta. E uma hora transborda.
Erro 3 – A síndrome do radar ligado 24 horas
Viver em estado permanente de alerta. Tudo vira sinal de perigo, qualquer
silêncio vira ameaça. O corpo entra em plantão eterno, sem adicional noturno e
sem folga semanal.
Erro 4 – O depois infinito
“Depois eu descanso.”
“Depois eu cuido de mim.”
“Depois a vida volta.”
Esse “depois” é uma miragem. Ele nunca chega do jeito que a gente imagina.
Erro 5 – O desaparecimento elegante
Confundir cuidar com se anular. Ir sumindo devagar, sem barulho, até virar
apenas função. Mas quem se apaga não ilumina ninguém por muito tempo.
Erro 6 – O gerente do destino
Assumir culpas que não pertencem a nós. Se melhora, foi obrigação. Se piora,
foi falha pessoal. Não controlo a biologia, o tempo nem o mistério da vida.
Erro 7 – Ver o sacrifício como maldição, e não como
bênção
Achar que cuidar é apenas peso, castigo ou condenação. Esquecer que, apesar do
cansaço, existe ali um privilégio raro: o de estar presente quando a vida pede
testemunha. O sacrifício dói, mas também consagra. Não romantiza o sofrimento —
dá sentido a ele.
De tudo isso, ficou uma regra simples, aprendida na prática:
se o maestro quebra a batuta, a música para. Cuidar de alguém exige também
cuidar de quem cuida. Não como luxo, mas como condição de continuidade.
Não escrevo isso como teoria, mas como confissão. Como
alguém que esteve dos dois lados da dor, que segurou mãos, tomou decisões
difíceis e também falhou. Se este jogo ajudar outro cuidador a errar menos — ou
ao menos a errar com mais gentileza consigo mesmo — já terá cumprido seu papel.
Porque cuidar é amor em estado bruto.
E amar, mesmo quando custa, é também um privilégio silencioso.

