terça-feira, 16 de dezembro de 2025

O Disjuntor da Vida: Uma Lição Sobre Luz e Perspectiva



Há um momento que me é particularmente precioso. Acontece logo depois que desligo uma chamada com minha mãe. Eu me recosto, talvez em minha rede gostosa como agora, e saboreio o calor que a conversa deixa no coração. É um aquecimento suave, um eco de afeto que nos lembra de onde viemos e dos laços que nos sustentam. Minha mãe, com seus 87 anos, mora em Campina Grande-PB, e eu, aqui em Brasília, encurtamos distâncias através da voz. E foi numa dessas ligações, que começou com a sombra de um problema, que ela me presenteou com uma das mais belas e simples metáforas sobre a vida que já ouvi.

Ela me ligou resoluta, usando os dados móveis do celular. "Meu filho", disse ela, com a voz carregada de uma preocupação prática, "a internet não funciona, o modem está apagado e dezesseis lâmpadas da casa não acendem". A casa estava num verdadeiro blackout, com exceção de um único aparelho que resistia: a geladeira. A causa, para ela, era óbvia e desoladora. Na noite anterior, um carro havia batido no poste da rua, e a companhia de energia ainda fazia os reparos. A conclusão, reforçada por uma amiga, era lógica e terrível: quando a energia foi restabelecida, a sobrecarga deve ter queimado tudo. A geladeira, por algum milagre, sobrevivera.

Na mente dela, um roteiro exaustivo já se desenrolava. Ela se via mais tarde, enfrentando filas e burocracias na companhia elétrica para abrir um processo de ressarcimento pelos itens queimados. A casa às escuras era apenas o primeiro ato de um drama que prometia ser longo, cansativo e desgastante. Era a impotência diante de um problema que parecia ter vindo de fora e causado um dano irreversível.

Enquanto ouvia seu relato, uma imagem de meu pai, de anos atrás, me veio à mente com clareza. Lembrei de seu cuidado ao construir aquela casa, instalando um quadro de disjuntor com uma chave para cada área: uma para as luzes, outra para a geladeira, outra para certas tomadas. A solução para o grande apagão talvez não estivesse na companhia elétrica, mas a poucos passos de onde ela estava.

"Ô, mamãe", perguntei com calma, tentando furar o bloqueio da preocupação. "Você já olhou o disjuntor?". Ela pensou naquele quadro principal, lá no quintal, mas eu a guiei. "Não, mãe, aquele atrás da porta da cozinha...". Uma pausa. "Ah, eu sei onde é", ela respondeu. "Vá olhar. Pode ser só que o disjuntor das luzes tenha caído". Minha sugestão era tão simples que soava quase ingênua diante da catástrofe que ela descrevia. Ela concordou em verificar.

Não se passaram cinco minutos. O telefone tocou novamente. Era ela, mas a voz era outra. O peso havia sumido, substituído por uma alegria que transbordava na linha.

"Meu filho, deu certo. Era o disjuntor. Tem luz em todo canto. A minha alma clareou. Agora a vida iluminou novamente."

Essa frase, dita com o alívio de quem se livra de um fardo imenso, ecoou dentro de mim. Ela não disse apenas que as luzes voltaram. A alegria era tão grande que a casa com "luz em todo canto" se tornou a metáfora imediata para o seu estado de espírito. Ela disse que a vida dela iluminou. Naquele instante, entendi que a escuridão das lâmpadas era um reflexo da escuridão que a preocupação lança sobre a alma. Ao mover uma pequena chave de plástico, ela não apenas restaurou a eletricidade, mas também desanuviou a mente, dissipou o medo da burocracia e reacendeu sua paz de espírito.

E então, me pergunto, e pergunto a vocês: quantas vezes em nossa vida o que está faltando é apenas ligar um disjuntor? Quantas vezes enfrentamos um "blackout" emocional, profissional ou relacional e imediatamente declaramos a perda como definitiva? "Queimou tudo", dizemos. "Não tem mais jeito".

Nossa tendência, quando imersos no problema, é culpar o fator externo — "foi a batida que derrubou o poste" — e usar essa causa para justificar nossa paralisia. A nossa própria lógica, tão útil em tantos momentos, torna-se enviesada. É nesse estado de "aperreio" que nossa lógica se deforma. A angústia nos cega para as soluções simples, nos convencendo de que a única saída é a mais complexa e dolorosa. Estamos tão focados na complexidade do apagão que não nos lembramos de verificar o interruptor que mora logo ali, "atrás da porta".

Foi a minha perspectiva externa, livre da angústia do momento, que me permitiu lembrar do disjuntor que meu pai instalou. Minha mãe, no seu aperreio, não conseguiu acessá-lo em sua memória. Isso nos ensina algo fundamental sobre a jornada, especialmente na maturidade: o valor inestimável de um olhar amigo.

Quando compartilhamos nossas dores e preocupações com alguém de confiança, permitimos que essa pessoa olhe para nossa situação de um outro ângulo. Esse amigo pode ser aquele que nos diz: "E se você olhasse o disjuntor?". Ele não resolve o problema por nós, mas aponta para a chave que não estamos vendo. Esse "disjuntor" pode ser uma mudança de hábito, uma alteração de comportamento, uma nova perspectiva sobre um velho problema. Ter essa rede de apoio é uma das ferramentas mais poderosas para a nossa saúde mental e bem-estar. É o que nos ajuda a encontrar o caminho quando nossa própria lógica nos deixa no escuro.

A história da minha mãe nos oferece um pequeno manual para quando a vida parecer apagar as luzes. Podemos resumi-lo em quatro passos simples:

Pause Antes de Catastrofizar Quando um problema surgir, respire fundo. A primeira conclusão, especialmente quando estamos sob estresse, costuma ser a mais negativa. Questione esse primeiro pensamento. Será que "queimou tudo" mesmo, ou há outra possibilidade?

Procure a Solução Simples Primeiro Antes de se preparar para a batalha mais complexa, procure a "solução atrás da porta". Qual é a ação mais simples que você pode tomar agora? Muitas vezes, o caminho mais curto é o mais eficaz.

Peça um Olhar de Fora Não hesite em compartilhar suas preocupações com um amigo, um familiar, um colega de confiança. Explicar o problema para outra pessoa pode, por si só, clarear suas ideias. E a perspectiva dela pode revelar o "disjuntor" que você não estava vendo.

Identifique Seus Disjuntores Faça uma reflexão. Que áreas da sua vida parecem estar no escuro? Quais são os "disjuntores" internos — hábitos, pensamentos, comportamentos — que você talvez precise "religar" para que tudo funcione de uma forma diferente e mais iluminada?


Meus caros colegas do projeto 70+, a lição que o disjuntor da minha mãe nos traz é de uma esperança imensa. Ela nos lembra que, mesmo quando o mundo parece escuro e as soluções, distantes, o poder de iluminar nossa vida muitas vezes está ao alcance de nossa mão. Está em uma pequena chave atrás da porta, em uma pergunta simples a um amigo, em uma pausa para respirar antes de assumir o pior.

Que possamos nos ajudar a encontrar nossos disjuntores internos e, com coragem e um pouco de ajuda, religá-los sempre que necessário. Lembrem-se: antes de se convencerem da catástrofe, deem uma olhada atrás da porta. A solução pode ser mais simples do que o nosso "aperreio" nos deixa acreditar.

Um grande abraço, 
Ricardo de Faria Barros, colega aposentado do BB e psicólogo.

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