Meu nome é Ricardo. Aos sessenta e um anos, habito a longelescência: o tempo em que o corpo conhece o cansaço da lida, mas a alma mantém o vigor de quem ainda espera o milagre na próxima ordenha. Sou psicólogo da logoterapia e trabalho com a longevidade, mas aprendi o que é ser humano no cheiro do curral, entre o vapor do leite quente e o mofo do ressentimento.
Naquela madrugada de dezembro, o frio da Cisjordânia era uma lâmina. Caminhei dez quilômetros até a terra do senhor Enoque com o peito apertado; minha pequena Sofia ardia em febre por uma dor de ouvido. Eu não queria estar ali, mas precisava dos meus quatro queijos.
A casa de Enoque era um monumento à estagnação. Ao entrar na cozinha, o ar era denso, impregnado com um cheiro de vida que não se renovou. Os cômodos eram cavernas escuras, onde o pó sobre os móveis parecia contar os dias desde que a alegria fora exilada. Enoque estava lá, uma silhueta encurvada contra a penumbra.
— Tem gente no curral — disse ele, a voz seca como palha de milho. — Um casal. Ela, quase parindo. Não quis abrir minha casa. O quarto de minha esposa continua fechado, Ricardo. Trancado com o luto e o cheiro do tempo. Mandei que deitassem na sujeira. Se quiserem se abrigar, que usem o calor das vacas.
Enoque não era mau; era enlutado. Mas o luto dele apodreceu. Ele preferia a segurança estéril de uma casa morta à "invasão" da vida nova.
Fui para o curral e o cenário era outro. Ali, o ar cheirava a esterco fresco, feno seco e o hálito doce das vacas. O milagre operava na simplicidade: a vaca Estrela, geralmente arredia, estava ajoelhada em reverência. O bebê dormia no cocho de madeira, onde o cheiro do colostro se misturava ao perfume da palha limpa. Maria me deu o unguento que curou Sofia, e José, o marceneiro, assumiu minha ordenha. Senti o calor do leite batendo no balde de zinco — o som da vida que insiste em alimentar o mundo.
Corri para casa para salvar Sofia. Mal o remédio agiu, ouvi batidas urgentes. Eram três homens majestosos, montados em camelos cujos arreios de couro cheiravam a especiarias distantes. Estavam desorientados.
— Buscamos o Menino — disse Baltazar. — Mas o sol nasceu e a Estrela da Guia sumiu. Sem ela, estamos perdidos no caminho e na alma. O sentido nos fugiu.
— Talvez o Menino tenha nascido hoje — respondi, com a autoridade de quem viu o impossível. — Vi a vaca Estrela ajoelhar. Vi o unguento curar minha filha. Se buscam o sagrado, ele não está nas estalagens, mas no curral de Enoque.
Eles ficaram extasiados. A alma deles, antes desértica, floresceu. Convidei-os a entrar e servimos café, pão e meu queijo — aquele queijo que tem o tempero do suor e da honestidade. Ao saberem que minha Joana estava fora, fazendo diárias sob o sol causticante, entregaram-me um perfume raríssimo.
— Para ela, Ricardo. Pelo perfume da sua dedicação.
Voltamos ao curral. Eu, meus filhos e os magos. Maria recebeu a seda magnífica, mas ao saber da nossa Joana, partiu o tecido ao meio com as mãos firmes: "Metade para o meu filho, metade para a beleza da sua esposa".
O curral tornou-se um templo de alegria terrena. O bezerro da Estrela, em um surto de vitalidade, começou um "pega-pega" saltitante com os camelos. O som dos cascos na terra batida, o mugir suave das vacas e o riso das crianças criavam uma sinfonia de vida plena. Ofereci mais queijo aos senhores, que comiam com as mãos, celebrando a simplicidade.
E Enoque? Ele continuava na janela daquela casa pesada.
Ele via o brilho da seda refletir no vidro empoeirado, sentia o aroma do perfume atravessar as frestas da madeira velha, mas não descia. Ele tinha as chaves da casa, mas nós tínhamos as chaves da vida. Ele guardava a ordem do museu; nós celebrávamos a desordem do milagre.
Naquela madrugada, entendi que o Natal não força portas. Ele nasce onde há coragem para abrir a janela, onde o cheiro do campo vence o mofo do luto, e onde alguém, mesmo cansado, ainda consegue transformar o pouco que tem no banquete que o mundo tanto busca.

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