quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O Maestro e Sua Partitura de Um Tempo que Não Anda (Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 


Numa manhã ensolarada no Distrito Federal, recebo o telefonema de minha mãe. A voz vinha mansa demais. Disse que tinha feito uma mamografia e, depois, uma biópsia. Tudo meio escondido de nós. Contou como quem fala de algo trivial, quase burocrático. Acrescentou que o resultado sairia em dois dias, numa segunda-feira.

Foi o tom. Não as palavras.
O tom.

Ali, todos os alertas se acenderam em mim. O corpo reconheceu antes da razão. E, num segundo, revisitei o processo do meu pai: dois cânceres — pulmão e cérebro — em 2017 e 2021. A memória não veio como lembrança; veio como aviso.

Sem dizer nada a ela, não fiz perguntas, não dramatizei. Apenas agi. Botei o carro na estrada. Não podia permitir que ela recebesse o resultado da biópsia sozinha. Algumas notícias exigem presença antes de explicação. Dirigi cerca de 2.300 quilômetros, atravessando estados, pensamentos e silêncios, até chegar a tempo. O volante firme, a mente em vigília e o coração rezando sem palavras.

Na estrada, aprendi de novo que amor não avisa: ele se move.

Corte de cena.

Agora é 22 de janeiro de 2026.

Recentemente vim passar uns dias na minha cidade natal para ajudar nos cuidados com a minha mãe. E notei que, desde então, o tempo perdeu o calendário e ganhou uma partitura musical. Já não sou regido por terças ou domingos; sou regido pelo ritmo dos curativos, pelas pausas entre idas e vindas a médicos e hospitais, pelo compasso dos exames e pelo adagio dos retornos. Aprendi a ler o silêncio dela: se é cansaço, se é dor ou se é apenas a vida pedindo um repouso mais longo. O relógio na parede continua seu tique-taque burocrático, mas quem compõe as horas agora sou eu.

Cuidar de alguém gravemente doente cria um tempo próprio: suspenso, circular, feito de respirações contadas. A vida vira uma novela sem sinopse, escrita minuto a minuto, sem ensaios. Planejar torna-se um luxo dissonante. Tudo depende da harmonia do corpo dela amanhã… ou daqui a duas notas.

Nesse tempo estranho, a gente vai se ausentando de si quase sem perceber. As necessidades entram em modo silencioso e a agenda congela. Aos 61 anos, vivendo minha própria longelescência, vejo-me regendo a vida dela, aos 87. Somos o retrato de um fenômeno social cada vez mais comum: longevos cuidando de longevos. Uma legião de “jovens idosos” que adia a própria existência para sustentar a de quem lhes deu a luz. São vidas que entram em modo de espera, sonhos que estacionam na garagem com o motor ainda quente.

E nem todos os longevos se deixam cuidar, como naquele mundo ideal das “propagandas da Família Margarina”. Têm os mais resistentes, os que ainda estão elaborando o luto, os que resistem aos tratamentos, os ingratos, os mais ácidos, os que ao enfrentar emmedos e dificuldades da doença, acabam por devolver isto numa carga pesada sobre os cuidadores, e equipe de saúde.

Marquei minha volta pra cá. Eu seguirei pra Brasília na terça, dia 27, e vou voltar em fevereiro. Adiei o carnaval com a família, que estava programado. O confete dará lugar ao algodão, e tá tudo bem. O importante é continuar com “o blco na rua”. Mesmo que seja a rua do cuidar.

O jardineiro aqui de casa acaba de chegar. Mamãe tinha agendado com ele, quando ainda a roda-viva de sua vida não tinha girado. Ele chegou como um mensageiro de um tempo em que as plantas eram a nossa maior preocupação. Quando disse a ela que aproveitaria minha ida à feira para trazer mudas de gerânios e repor os que haviam morrido na jardineira, vi algo que nenhum remédio produz: um lampejo de motivação. Ela sorriu. Um sorriso breve, mas com brilho nos olhos — provocado pelas cores que ainda virão. Por um segundo, o jardim dela foi maior que a doença.

Lembrei-me do lançamento do livro do meu amigo Hayton. Interagi com muitos longevos naquela noite e quase todos estavam mergulhados nessa mesma sinfonia invisível. A vida vai nos moldando e nos coloca exatamente onde a melodia mais precisa de nós. O palco, muitas vezes, é o corredor de um hospital. Foi ali que defendi o respeito aos acompanhantes — esses verdadeiros maestros das sombras. Eles dormem em cadeiras desconfortáveis e perambulam atrás de uma nota mínima de esperança, enquanto seus projetos pessoais se apagam lentamente, como letra de música sem melodia.

Nessa rotina, cuidador e cuidado acabam se parecendo. Passamos a viver de pequenas e grandiosas alegrias: uma veia puncionada de primeira, uma sopa aceita, uma ida ao banheiro que funcionou, uma noite finalmente dormida. Pequenos milagres cotidianos. Cuidadores são seres solitários. Carregamos o peso das decisões e a culpa pelos caminhos que desafinam. Por isso, aprendi uma regra dura e simples: se o maestro quebra a batuta, a música para. Quem cuida do cuidador? Se não for ele mesmo, esqueça.

Para sustentar o outro sem se abandonar por completo, é preciso encontrar brechas de luz no cotidiano.

A pausa é música. O silêncio do café permite que a próxima melodia seja afinada.
Aceitar o coro. Se alguém oferecer uma mão, aceitar. O espetáculo não precisa ser um solo absoluto.
A escutadeira particular. Dialogar com o que me devolve a mim mesmo, seja a minha jiboia crescendo lenta no canto da sala, seja um parágrafo escrito sem pressa.
A botânica do afeto. Às vezes, a cura começa no replantio de um gerânio e no brilho de um sorriso recuperado.

Hoje é quinta-feira. O tempo me soprou que é dia de bode na barraca de Dona Socorro, lá na Feira da Prata. Vou escapar rapidinho. Vou buscar o perfume das flores para ela e o sabor do bodinho com cuscuz para mim. Vou temperar de alegria o meu próprio chão para continuar sendo o amparo dela.

Faria tudo de novo. Cuidei de papai, cuido de mamãe. Como diz Vinícius, a vida só se dá pra quem se deu. Mas dar-se não é apagar-se. Cuidar é resistência, é cansaço honesto, é o amor em sua forma mais nua.

O verdadeiro aprendizado talvez seja este: ser o abrigo dela sem deixar desmoronar o meu. Mesmo que o tempo continue sem calendário, hoje ele terá cheiro de terra molhada e gosto de feira. Não desaparecer inteiro — apesar de tudo — é a minha vitória final.

Epílogo

No fim, aprendi que amar alguém nesse território não é vencer a doença, nem controlar o desfecho. É sustentar a dignidade do caminho. É permanecer quando tudo convida à fuga, é escolher presença quando o futuro se recusa a colaborar. A vida pode até perder o calendário, os planos e as planilhas, mas não perde o essencial: a possibilidade de sentido. Se amanhã o imprevisto mudar a música, eu sigo. Enquanto houver cuidado, ainda há amor. E enquanto houver amor, mesmo cansado, a vida continua merecendo ser vivida — nota por nota, passo por passo, sem desaparecer inteiro.

Contribuição pessoal – O jogo dos sete erros do cuidador

Depois de cuidar de papai e agora cuidar de mamãe, percebi que o cuidado também ensina por tropeços. Aprendi mais errando do que acertando. Por isso, deixo aqui — sem pretensão acadêmica, mas com honestidade vivida — o que chamo de o jogo dos sete erros que cuidadores precisam tomar cuidado para não cair. É um jogo silencioso, sem tabuleiro, jogado no dia a dia, quando ninguém está olhando.

Erro 1 – O super-herói invisível
Achar que precisa dar conta de tudo sozinho. Não pede ajuda, não delega, não reclama. Só cai duro depois. Amor não exige onipotência. Herói que não dorme vira vilão de si mesmo.

Erro 2 – O mutismo estratégico
Engolir o próprio cansaço “pra não preocupar ninguém”. Silenciar tristeza, raiva e medo como se fossem fraquezas. Emoção reprimida não evapora; ela fermenta. E uma hora transborda.

Erro 3 – A síndrome do radar ligado 24 horas
Viver em estado permanente de alerta. Tudo vira sinal de perigo, qualquer silêncio vira ameaça. O corpo entra em plantão eterno, sem adicional noturno e sem folga semanal.

Erro 4 – O depois infinito
“Depois eu descanso.”
“Depois eu cuido de mim.”
“Depois a vida volta.”
Esse “depois” é uma miragem. Ele nunca chega do jeito que a gente imagina.

Erro 5 – O desaparecimento elegante
Confundir cuidar com se anular. Ir sumindo devagar, sem barulho, até virar apenas função. Mas quem se apaga não ilumina ninguém por muito tempo.

Erro 6 – O gerente do destino
Assumir culpas que não pertencem a nós. Se melhora, foi obrigação. Se piora, foi falha pessoal. Não controlo a biologia, o tempo nem o mistério da vida.

Erro 7 – Ver o sacrifício como maldição, e não como bênção
Achar que cuidar é apenas peso, castigo ou condenação. Esquecer que, apesar do cansaço, existe ali um privilégio raro: o de estar presente quando a vida pede testemunha. O sacrifício dói, mas também consagra. Não romantiza o sofrimento — dá sentido a ele.

De tudo isso, ficou uma regra simples, aprendida na prática: se o maestro quebra a batuta, a música para. Cuidar de alguém exige também cuidar de quem cuida. Não como luxo, mas como condição de continuidade.

Não escrevo isso como teoria, mas como confissão. Como alguém que esteve dos dois lados da dor, que segurou mãos, tomou decisões difíceis e também falhou. Se este jogo ajudar outro cuidador a errar menos — ou ao menos a errar com mais gentileza consigo mesmo — já terá cumprido seu papel.

Porque cuidar é amor em estado bruto.
E amar, mesmo quando custa, é também um privilégio silencioso.


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