Há dois perigos silenciosos que rondam a felicidade ao longo da vida — e se tornam ainda mais nocivos na maturidade e na longevidade. Eles não fazem barulho, não anunciam chegada, não fazem escândalo. Mas corroem por dentro, aos poucos, todos os dias.
Um vem de trás.
O outro caminha ao lado.
O primeiro são os SEs.
O segundo são os QUANDOs.
Aprendi isso numa noite comum de 2012, numa pizzaria movimentada de Brasília, durante o lançamento do meu primeiro livro, Sobre a Vida e o Viver. O ambiente fervilhava. Conversas se misturavam ao tilintar de copos e talheres. Eu estava ali, estreante na literatura, caneta na mão, sorriso no rosto, tentando dar atenção a cada pessoa que se aproximava da mesa de autógrafos.
Naquela época, eu atuava no Banco do Brasil, na diretoria de tecnologia, cuidando de Capital Humano. A fila refletia bem esse universo: colegas, amigos, gente da área técnica, curiosa, antenada em novidades que, para mim, muitas vezes soavam como ficção científica.
Foi nesse contexto que um rapaz jovem se aproximou. Daqueles que parecem ter nascido com um teclado na ponta dos dedos. Ele já tinha garantido o exemplar dele, mas queria levar mais dois: um para a namorada, outro para a mãe. Havia, porém, um problema prático. O dinheiro tinha acabado. Carteira esquecida, talvez.
Então veio a proposta, dita com a maior naturalidade do mundo:
— Posso pagar em bitcoins. Seis bitcoins.
A caneta parou no ar. Eu franzi a testa e ri. Naquele momento, bitcoin poderia ser qualquer coisa: nome de remédio, gíria adolescente ou cupom de jogo online. Eu não fazia a menor ideia do que era aquilo, nem onde se guardava.
Ele tentou explicar. Falou de criptomoedas, de futuro, de valorização. Mas a fila crescia, a pizzaria estava cheia, o barulho aumentava. Eu não tinha tempo, nem interesse cognitivo, para entender uma moeda invisível que vivia dentro de um computador.
Resolvi do jeito antigo. Peguei dois livros, fiz as dedicatórias com carinho para a mãe e para a namorada dele, dei um abraço sincero e dispensei o pagamento.
Há um detalhe importante nessa história. Por ter lançado o livro numa pizzaria, os proprietários me presentearam com pizzas naquela noite. Ou seja, aquilo que eu “deixei de ganhar” nos dois livros foi, na prática, compensado pelo que eu não gastaria no jantar com minha família. Não houve prejuízo. Houve troca. Houve equilíbrio. Houve encontro.
Hoje, quando faço a conversão, é inevitável arregalar os olhos.
Seis bitcoins, na cotação atual, valem uma quantia capaz de resolver a vida de muita gente.
Na época, valeriam talvez oitenta reais. Duas pizzas e um refrigerante.
E é exatamente aqui que mora o primeiro perigo.
Os SEs atrás
O SE costuma vir carregado de culpa.
Ele cria uma falsa narrativa de progresso, como se a vida tivesse, obrigatoriamente, seguido um caminho melhor caso aquela escolha tivesse sido diferente.
“Se eu tivesse aceitado.”
“Se eu tivesse entendido.”
“Se eu tivesse comprado.”
“Se eu tivesse dito sim.”
“Se eu tivesse dito não.”
O retrovisor da vida não é um vilão. Ele é ótimo para relembrar histórias bonitas, encontros felizes, afetos e conquistas que aquecem o coração.
Mas quando usamos o retrovisor para remoer culpas, frustrações, sofrimentos e decepções, ele fica perigoso.
Quem dirige olhando só para trás não avança.
Fica travado, preso, repetindo os mesmos pensamentos.
É fácil — e até covarde — julgar o Ricardo de 2012 com a cabeça do Ricardo de hoje. O Ricardo de 2012 não tinha bola de cristal. Tinha apenas o repertório, o conhecimento e o contexto daquele instante.
Quem garante que eu não teria vendido os bitcoins na semana seguinte, achando que fiz um grande negócio?
Quem garante que eu não teria perdido a senha da carteira digital?
Quem garante que eu não teria investido tudo depois em algo infrutífero e perdido do mesmo jeito?
O cemitério dos “se eu soubesse” está cheio.
Na longevidade, chicotear o próprio passado é um erro grave. Não há felicidade possível sem misericórdia consigo mesmo.
Os QUANDOs ao lado
O QUANDO aponta para fora.
Ele fala de um futuro condicionado, baseado quase sempre na vida do outro.
“Quando eu for gerente.”
“Quando eu casar.”
“Quando eu trocar o carro.”
“Quando eu tiver um corpo bonito.”
“Quando eu alcançar o padrão que admiro.”
O QUANDO nasce da comparação. Ele se alimenta de referências externas, de padrões desejados, muitas vezes irreais e distorcidos. Transforma admiração em cobrança e convivência em disputa silenciosa.
Esse tipo de desejo é improdutivo, porque não brota da própria história, mas da régua do outro.
O erro não está em olhar para o lado.
O erro está em usar o lado como medida de valor.
O olhar para o lado também pode ser bom
Olhar para o lado pode inspirar.
Pode ensinar.
Pode ampliar horizontes.
Há pessoas que passam ao nosso lado e despertam algo bonito: um jeito mais leve de cuidar do corpo, uma relação mais saudável com o dinheiro, uma forma mais generosa de amar, uma maneira mais digna de envelhecer.
Isso não é comparação doentia.
Isso é aprendizado por convivência.
O problema começa quando a admiração vira inveja.
Quando o exemplo vira cobrança.
Quando o olhar deixa de inspirar e passa a diminuir.
Inspirar-se é diferente de se anular.
Copiar boas práticas não exige desprezar a própria história.
Crescer não pede que a gente chame a própria vida de fracasso.
Sobre as Pedras do SE e do QUANDO
Porque só cada um sabe a delícia e as dores de ser feliz.
E ninguém saberá por ele.
Ninguém sabe as pedradas que tomei
e que, depois de caírem no chão,
recolhi para fazer diferente.
Com elas, não levantei lamentos.
Fiz esculturas.
Ninguém sabe as pedras que catei
para fazer as pontes pelas quais caminho.
Ninguém sabe as pedras que carreguei,
para erguer esta construção que hoje sou.
Ninguém sabe as pedras que escolhi
para construir o altar onde celebro a vida.
Cada um constrói, à sua maneira,
sua própria engenharia de sobrevivência:
com quedas, impactos, cicatrizes e escolhas.
Por isso, comparar-se é injusto.
Julgar-se é cruel.
E medir a própria felicidade pela régua do outro
é desconhecer a própria obra.
A felicidade possível
é sempre artesanal.
Feita à mão.
Pedra por pedra.
Ricardo de Faria Barros
Psicólogo
P.S. Inspirado numa postagem de Hélio Simões, no WhatsApp da ANABB-PB: um vídeo de Cid Moreira anunciando o salário mínimo “em milhões”, seguido do comentário: “A gente já foi milionário…”
Aquilo me lembrou que eu também já fui quase milionário.
Quase. 😄



