quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

8º Passo para Felicidade: SEs atrás e QUANDOs ao lado (Ricardo de Faria Barros)

 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Cartas ao JG - Decálogo da Longevidade



Sabe, João Gabriel, agora que você está com 16 anos, cruzando essa ponte entre a juventude e as escolhas que vão desenhar o seu caminho, quero te contar sobre o que aprendo no meu "escritório" de domingo.

Todo domingo eu cumpro o meu sagrado ritual de humanidade. O sol do Planalto Central ainda está despertando quando chego à feira de São Sebastião, mas o ar já está saturado com o perfume inconfundível do óleo quente e da massa de pastel fritando. Eu me instalo no meu "escritório de feireira", lá na Pastelaria La Dayse. Entre o vapor que sobe do meu cafezinho e o barulho das bandejas de metal, eu me sento para contemplar o espetáculo da vida.

Dali, eu vejo o mundo em sua coreografia mais bruta e bela. É um alvoroço de gente: vejo o feirante que equilibra a vida na cabeça, levando galinha e melancia ao mesmo tempo, desafiando a gravidade com a naturalidade de quem conhece o chão que pisa. O som é uma sinfonia de vozes do nosso entorno: é feirante gritando para feirante, cliente pichinchando com aquele sorriso de quem busca muito mais que um desconto, e o burburinho constante que flutua entre as barracas.

A feira, filho, é o último reduto da humanização. Ali, o "fácil" não é um algoritmo; é o olho no olho. Ninguém está protegido por teclados ou escondido atrás de telas frias que tanto nos afastam. Na feira, a vida é tátil, é ruidosa, é o "faça fácil" do molho de cenoura que custa dois reais, mas que sai por um e cinquenta depois de uma boa prosa.

Enquanto eu voltava com o teu pastel — quentinho, estalando no papel pardo — parei diante de um cartaz colado de frente ao Banco do Brasil. Era uma folha de papel simples, mas carregada de sentido: "Grande Torneio de Dominó". Os prêmios eram a própria essência do povo: uma porca para o primeiro lugar, caixas de cerveja de 600ml para o segundo. Ri sozinho imaginando o campeão atravessando as ruas de São Sebastião com a porca nos braços, como quem carrega um troféu de ouro.

Mas, como seu pai e psicólogo, o que eu vi ali não foi um jogo. Aqueles 40 reais de inscrição são, na verdade, um passaporte para a existência. Naquele domingo, dia 9, aquelas pessoas deixam de ser uma "multidão" anônima para se tornarem um "grupo". Elas deixam de ser invisíveis. O senhor que avisa à esposa que "hoje volta mais tarde porque tem torneio" está, na verdade, dizendo que tem um propósito. Ele vai para a arena da vida para se vincular, para ser esperado, para ter uma história para contar.

João Gabriel, meu conselho para a sua jornada — seja agora, nos seus 16 anos, na graduação, ou no dia em que você for buscar seu lugar profissional, é este: faça grupos.

As pessoas estão muito sozinhas, e o isolamento é o grande mal do nosso tempo. Os grupos são o nosso colchão social de liquidez; é neles que a gente deságua nossos medos e celebra nossas vitórias.

Lembre-se do seu primo Arthur. Quando ele se despediu da nossa querida tia Lila, ele agradeceu pelas tardes de "buraco" na beira da praia. Ele era o reserva, aquele que completava a mesa quando um tio faltava, e foi ali, entre uma carta e outra, que ele construiu o seu lugar no mundo.

A ciência e os estudos de longevidade, como o famoso Grant Study, confirmam o que eu aprendi na feira: quem vive melhor é quem sabe editar a própria memória, guardando a coragem e descartando o rancor, e quem nunca deixa de se filiar a algo maior.

A vida, filho, só se entrega por inteiro para quem se entrega a ela. Não se isole. Entre no coral, aprenda espanhol, junte-se aos que querem plantar árvores na praça. Afilie-se à vida com a vivacidade que eu chamo de longelescência. Pois, no final das contas, o que nos sustenta não é o que acumulamos, mas o sentimento de pertencimento. 
Um dia vocêe entrará na longevidade, lá pelos 50 anos.
Então, deixo as dicas que farão toda a diferença, acredite nelas!

Decálogo da Longelescência (+50)

  1. Ocupe a Cidade: Transforme espaços comuns em seu "escritório". Ser visto é o primeiro passo para validar sua existência.

  2. Busque o "Olho no Olho": Valorize o contato humano direto. A tecnologia é uma ferramenta, mas o encontro é a alma da vida.

  3. Tenha um Propósito Dominical: Não deixe os dias passarem em branco. Tenha compromissos que te façam ser esperado por alguém.

  4. Costure Redes de Afeto: Diversifique suas amizades. Quanto mais fios tiver a sua rede, mais macio será o seu "colchão social".

  5. Edite sua Própria História: Seja o mestre de cerimônias da sua memória. Guarde a coragem do sobrevivente e deixe o rancor no passado.

  6. Seja um Aglutinador: Onde houver solidão, leve um convite. O sentido da vida floresce no "nós".

  7. Legado se Constrói Brincando: Transmita sua sabedoria através do tempo compartilhado, seja num jogo de cartas ou numa conversa de feira.

  8. Mantenha a Alma de Aprendiz: A "adolescência" da alma é o que mantém a chama viva. Nunca é tarde para um novo grupo ou uma nova língua.

  9. Filie-se a Causas: Pertencer a movimentos que cuidam do mundo dá escala e significado à sua existência.

  10. Entregue-se para Receber: A vida é um espelho. Invista em convivência, tolerância e alegria, e ela te devolverá um amanhã possível.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O Maestro e Sua Partitura de Um Tempo que Não Anda (Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 


Numa manhã ensolarada no Distrito Federal, recebo o telefonema de minha mãe. A voz vinha mansa demais. Disse que tinha feito uma mamografia e, depois, uma biópsia. Tudo meio escondido de nós. Contou como quem fala de algo trivial, quase burocrático. Acrescentou que o resultado sairia em dois dias, numa segunda-feira.

Foi o tom. Não as palavras.
O tom.

Ali, todos os alertas se acenderam em mim. O corpo reconheceu antes da razão. E, num segundo, revisitei o processo do meu pai: dois cânceres — pulmão e cérebro — em 2017 e 2021. A memória não veio como lembrança; veio como aviso.

Sem dizer nada a ela, não fiz perguntas, não dramatizei. Apenas agi. Botei o carro na estrada. Não podia permitir que ela recebesse o resultado da biópsia sozinha. Algumas notícias exigem presença antes de explicação. Dirigi cerca de 2.300 quilômetros, atravessando estados, pensamentos e silêncios, até chegar a tempo. O volante firme, a mente em vigília e o coração rezando sem palavras.

Na estrada, aprendi de novo que amor não avisa: ele se move.

Corte de cena.

Agora é 22 de janeiro de 2026.

Recentemente vim passar uns dias na minha cidade natal para ajudar nos cuidados com a minha mãe. E notei que, desde então, o tempo perdeu o calendário e ganhou uma partitura musical. Já não sou regido por terças ou domingos; sou regido pelo ritmo dos curativos, pelas pausas entre idas e vindas a médicos e hospitais, pelo compasso dos exames e pelo adagio dos retornos. Aprendi a ler o silêncio dela: se é cansaço, se é dor ou se é apenas a vida pedindo um repouso mais longo. O relógio na parede continua seu tique-taque burocrático, mas quem compõe as horas agora sou eu.

Cuidar de alguém gravemente doente cria um tempo próprio: suspenso, circular, feito de respirações contadas. A vida vira uma novela sem sinopse, escrita minuto a minuto, sem ensaios. Planejar torna-se um luxo dissonante. Tudo depende da harmonia do corpo dela amanhã… ou daqui a duas notas.

Nesse tempo estranho, a gente vai se ausentando de si quase sem perceber. As necessidades entram em modo silencioso e a agenda congela. Aos 61 anos, vivendo minha própria longelescência, vejo-me regendo a vida dela, aos 87. Somos o retrato de um fenômeno social cada vez mais comum: longevos cuidando de longevos. Uma legião de “jovens idosos” que adia a própria existência para sustentar a de quem lhes deu a luz. São vidas que entram em modo de espera, sonhos que estacionam na garagem com o motor ainda quente.

E nem todos os longevos se deixam cuidar, como naquele mundo ideal das “propagandas da Família Margarina”. Têm os mais resistentes, os que ainda estão elaborando o luto, os que resistem aos tratamentos, os ingratos, os mais ácidos, os que ao enfrentar emmedos e dificuldades da doença, acabam por devolver isto numa carga pesada sobre os cuidadores, e equipe de saúde.

Marquei minha volta pra cá. Eu seguirei pra Brasília na terça, dia 27, e vou voltar em fevereiro. Adiei o carnaval com a família, que estava programado. O confete dará lugar ao algodão, e tá tudo bem. O importante é continuar com “o blco na rua”. Mesmo que seja a rua do cuidar.

O jardineiro aqui de casa acaba de chegar. Mamãe tinha agendado com ele, quando ainda a roda-viva de sua vida não tinha girado. Ele chegou como um mensageiro de um tempo em que as plantas eram a nossa maior preocupação. Quando disse a ela que aproveitaria minha ida à feira para trazer mudas de gerânios e repor os que haviam morrido na jardineira, vi algo que nenhum remédio produz: um lampejo de motivação. Ela sorriu. Um sorriso breve, mas com brilho nos olhos — provocado pelas cores que ainda virão. Por um segundo, o jardim dela foi maior que a doença.

Lembrei-me do lançamento do livro do meu amigo Hayton. Interagi com muitos longevos naquela noite e quase todos estavam mergulhados nessa mesma sinfonia invisível. A vida vai nos moldando e nos coloca exatamente onde a melodia mais precisa de nós. O palco, muitas vezes, é o corredor de um hospital. Foi ali que defendi o respeito aos acompanhantes — esses verdadeiros maestros das sombras. Eles dormem em cadeiras desconfortáveis e perambulam atrás de uma nota mínima de esperança, enquanto seus projetos pessoais se apagam lentamente, como letra de música sem melodia.

Nessa rotina, cuidador e cuidado acabam se parecendo. Passamos a viver de pequenas e grandiosas alegrias: uma veia puncionada de primeira, uma sopa aceita, uma ida ao banheiro que funcionou, uma noite finalmente dormida. Pequenos milagres cotidianos. Cuidadores são seres solitários. Carregamos o peso das decisões e a culpa pelos caminhos que desafinam. Por isso, aprendi uma regra dura e simples: se o maestro quebra a batuta, a música para. Quem cuida do cuidador? Se não for ele mesmo, esqueça.

Para sustentar o outro sem se abandonar por completo, é preciso encontrar brechas de luz no cotidiano.

A pausa é música. O silêncio do café permite que a próxima melodia seja afinada.
Aceitar o coro. Se alguém oferecer uma mão, aceitar. O espetáculo não precisa ser um solo absoluto.
A escutadeira particular. Dialogar com o que me devolve a mim mesmo, seja a minha jiboia crescendo lenta no canto da sala, seja um parágrafo escrito sem pressa.
A botânica do afeto. Às vezes, a cura começa no replantio de um gerânio e no brilho de um sorriso recuperado.

Hoje é quinta-feira. O tempo me soprou que é dia de bode na barraca de Dona Socorro, lá na Feira da Prata. Vou escapar rapidinho. Vou buscar o perfume das flores para ela e o sabor do bodinho com cuscuz para mim. Vou temperar de alegria o meu próprio chão para continuar sendo o amparo dela.

Faria tudo de novo. Cuidei de papai, cuido de mamãe. Como diz Vinícius, a vida só se dá pra quem se deu. Mas dar-se não é apagar-se. Cuidar é resistência, é cansaço honesto, é o amor em sua forma mais nua.

O verdadeiro aprendizado talvez seja este: ser o abrigo dela sem deixar desmoronar o meu. Mesmo que o tempo continue sem calendário, hoje ele terá cheiro de terra molhada e gosto de feira. Não desaparecer inteiro — apesar de tudo — é a minha vitória final.

Epílogo

No fim, aprendi que amar alguém nesse território não é vencer a doença, nem controlar o desfecho. É sustentar a dignidade do caminho. É permanecer quando tudo convida à fuga, é escolher presença quando o futuro se recusa a colaborar. A vida pode até perder o calendário, os planos e as planilhas, mas não perde o essencial: a possibilidade de sentido. Se amanhã o imprevisto mudar a música, eu sigo. Enquanto houver cuidado, ainda há amor. E enquanto houver amor, mesmo cansado, a vida continua merecendo ser vivida — nota por nota, passo por passo, sem desaparecer inteiro.

Contribuição pessoal – O jogo dos sete erros do cuidador

Depois de cuidar de papai e agora cuidar de mamãe, percebi que o cuidado também ensina por tropeços. Aprendi mais errando do que acertando. Por isso, deixo aqui — sem pretensão acadêmica, mas com honestidade vivida — o que chamo de o jogo dos sete erros que cuidadores precisam tomar cuidado para não cair. É um jogo silencioso, sem tabuleiro, jogado no dia a dia, quando ninguém está olhando.

Erro 1 – O super-herói invisível
Achar que precisa dar conta de tudo sozinho. Não pede ajuda, não delega, não reclama. Só cai duro depois. Amor não exige onipotência. Herói que não dorme vira vilão de si mesmo.

Erro 2 – O mutismo estratégico
Engolir o próprio cansaço “pra não preocupar ninguém”. Silenciar tristeza, raiva e medo como se fossem fraquezas. Emoção reprimida não evapora; ela fermenta. E uma hora transborda.

Erro 3 – A síndrome do radar ligado 24 horas
Viver em estado permanente de alerta. Tudo vira sinal de perigo, qualquer silêncio vira ameaça. O corpo entra em plantão eterno, sem adicional noturno e sem folga semanal.

Erro 4 – O depois infinito
“Depois eu descanso.”
“Depois eu cuido de mim.”
“Depois a vida volta.”
Esse “depois” é uma miragem. Ele nunca chega do jeito que a gente imagina.

Erro 5 – O desaparecimento elegante
Confundir cuidar com se anular. Ir sumindo devagar, sem barulho, até virar apenas função. Mas quem se apaga não ilumina ninguém por muito tempo.

Erro 6 – O gerente do destino
Assumir culpas que não pertencem a nós. Se melhora, foi obrigação. Se piora, foi falha pessoal. Não controlo a biologia, o tempo nem o mistério da vida.

Erro 7 – Ver o sacrifício como maldição, e não como bênção
Achar que cuidar é apenas peso, castigo ou condenação. Esquecer que, apesar do cansaço, existe ali um privilégio raro: o de estar presente quando a vida pede testemunha. O sacrifício dói, mas também consagra. Não romantiza o sofrimento — dá sentido a ele.

De tudo isso, ficou uma regra simples, aprendida na prática: se o maestro quebra a batuta, a música para. Cuidar de alguém exige também cuidar de quem cuida. Não como luxo, mas como condição de continuidade.

Não escrevo isso como teoria, mas como confissão. Como alguém que esteve dos dois lados da dor, que segurou mãos, tomou decisões difíceis e também falhou. Se este jogo ajudar outro cuidador a errar menos — ou ao menos a errar com mais gentileza consigo mesmo — já terá cumprido seu papel.

Porque cuidar é amor em estado bruto.
E amar, mesmo quando custa, é também um privilégio silencioso.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Um dia bom precisa de FQ3C (Ricardo de Faria Barros)


Atendi um senhor que chegou dizendo, quase pedindo desculpa por ocupar meu tempo:

“Doutor, eu não sei dizer direito o que eu tenho. Exame dá tudo normal. Mas o dia passa e eu fico cansado. Cansado de um jeito estranho.”

Ele não falava de dor no corpo. Falava de cansaço da vida.

Perguntei como eram os dias dele. A resposta veio rápida: todos iguais.

Aos poucos, conversando com calma, fomos entendendo que não se tratava de depressão grave, nem de doença importante. O que existia era algo mais silencioso e muito comum na longevidade: o dia dele tinha perdido sentido.

Ele não cuidava de nada além do básico.

Quase não fazia coisas por conta própria.

Não aprendia nada novo havia muito tempo.

Conversava pouco, só o necessário.

E, quando perguntado sobre vontades ou planos, ficava em silêncio.

Não faltava tempo.

Faltava vida circulando dentro do dia.

Essa cena se repete muito no consultório, em grupos e nas conversas do cotidiano. E foi a partir dessas escutas que fui percebendo algo simples, mas poderoso: um dia bom, na longevidade, quase sempre passa por cinco coisas básicas. Quando elas estão presentes, o dia anda. Quando faltam, o dia pesa.

Eu organizei isso num jeito fácil de lembrar, pensado para a vida real, não para livros difíceis. Chamei de FQ3C.

FQ3C é apenas um acrônimo, um lembrete diário, que reúne cinco verbos importantes para a vida continuar viva.


Fazer.

Querer.

Cuidar.

Conhecer.

Conversar.


Não é teoria complicada.

É vida prática.

Fazer é não deixar o dia parado.

É fazer comida, arrumar a casa, lavar roupa, caminhar, mexer o corpo, cuidar do que é seu. Quem para de fazer vai perdendo o ritmo do dia. E o dia sem ritmo fica pesado, longo demais. Mesmo que seja pouco, fazer alguma coisa todos os dias ajuda a pessoa a se sentir presente no mundo.

Querer é ter vontade de alguma coisa.

Todo mundo precisa querer algo, mesmo pequeno. Pode ser um passeio, uma visita, um almoço diferente, um plano simples para a semana. Quando a pessoa para de querer, a vida vai ficando sem gosto. O querer é o que chama a gente para frente e dá motivo para levantar da cama.

Cuidar é ter algo que depende de você.

Pode ser uma planta, um bichinho, a casa, a própria saúde, alguém da família ou da vizinhança. No meu caso, por exemplo, cuido dos passarinhos que vêm na varanda, tomo meu remédio direitinho e cuido de uma planta. São gestos simples, mas importantes, porque lembram uma coisa fundamental: a gente ainda faz falta. Quem não cuida de nada começa a se sentir meio fora da vida.

Conhecer é continuar curioso.

Aprender não tem idade. É aprender algo novo, ouvir uma história diferente, ver um programa com atenção, ler alguma coisa, descobrir. Quem para de aprender vai encolhendo por dentro. Conhecer é dizer para a vida: eu ainda estou aqui e ainda posso aprender.

Conversar é gente com gente.

Não é só dar bom-dia. É conversar de verdade. Ligar para alguém, puxar papo, contar uma história, ouvir com atenção. Muita tristeza na longevidade nasce da falta de conversa. Onde tem conversa, o coração esquenta e a solidão diminui.

Voltando ao senhor do começo, começamos bem devagar. Nada grande. Nada complicado. Ele passou a cuidar de uma planta. A fazer o próprio café. A caminhar ouvindo algo diferente. A ligar para um amigo sem motivo prático. A planejar pequenas coisas da semana.

Depois de algum tempo, ele voltou e disse algo que nunca esqueci:

“Eu não fiquei mais novo, não. Mas o dia ficou mais leve.”

É disso que estamos falando.

Felicidade na longevidade não é viver sorrindo o tempo todo.

É ter motivo para levantar, fazer, querer, cuidar, aprender e conversar.

Quando no dia tem Fazer, Querer e três Cs, o dia anda.

E quando o dia anda, a vida acompanha.

Para quem quiser se observar melhor, vale fazer uma pergunta simples ao final do dia ou da semana.

Tenho feito coisas no meu dia?

Tenho vontade de alguma coisa?

Tenho cuidado de algo ou alguém?

Tenho aprendido algo novo?

Tenho conversado com pessoas?


Não é prova.

É cuidado.

FQ3C não promete milagre.

Promete presença.

E, na longevidade, presença já é muita coisa.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Bairro da Prata - 13 Lugares de Memórias Quase Sagradas (Autor Ricardo de Faria Barros)


Caminhar por algumas ruas do Bairro da Prata, em Campina Grande-PB, não é um mero deslocamento físico; é uma peregrinação silenciosa pela cartografia da própria alma. Cada passo reivindica uma memória adormecida, como se o chão reconhecesse a pisada de meus pés muito antes de eu reconhecer o caminho. O cheiro do bairro   uma alquimia de asfalto quente, poeira ancestral e uma umidade teimosa que se agarra às paredes; percorre meu corpo como uma corrente elétrica suave, daquelas que não ferem, mas despertam. É um odor que não se descreve: ele invoca gente, convoca tempo, é a essência de casa.

Observo o meio-fio e vejo plantinhas insurgentes rompendo a crosta de concreto. Pequenas, frágeis, insubmissas. Ali, naquele exato ponto de ruptura, eu lançava meus barquinhos de papel, confeccionados às pressas com folhas de caderno, dobrados mais com esperança do que com técnica. Na alquimia da infância, as águas que desciam da ladeira da Antenor Navarro eram caudalosos rios de aventura. Não importava se carregavam segredos da cidade ou a pureza efêmera da chuva. A fantasia   essa força quase sagrada que nos redime da aridez do real   realizava seu milagre quotidiano: transmutava a matéria bruta em correnteza de sonhos. Hoje, aquelas plantas que brotam nas frestas me parecem oráculos. A vida, quando insiste, sempre traça sua passagem. A esperança, igualmente.

Mais adiante, o tempo parece ter feito uma pausa deliberada na bodega do Seu Tonheca. Ali, os relógios respiram em outra frequência. Davi, o filho mais novo, permanece um sentinela silencioso de uma era que se recusa a escoar. Seu olhar guarda uma fidelidade tácita ao passado, como se sustentasse um pacto: "Alguém precisa ficar para lembrar." A poeira dourada do crepúsculo pousa sobre o balcão, e todo o ambiente parece suspenso   um universo em pausa, tomando fôlego antes da próxima maré do tempo.

A subida em direção ao Hospital Santa Clara impõe um respeito quase litúrgico. É um monumento de paradoxos, onde a vida e a morte dançam a mesma valsa íntima, sem pedir licença. Suas paredes são argamassa de vozes: gemidos, orações murmuradas, promessas seladas em silêncio. Vejo, na memória, a luzinha rosa acesa, pequena e imensa, anunciando a chegada de Priscila   um farol de vida nova rompendo a escuridão. Mas sinto, no mesmo solo, o peso sereno onde papai descansou de suas fadigas. O mesmo espaço que acolhe o primeiro choro abriga o último suspiro. É um território sagrado, onde a fragilidade humana é recebida em lençóis brancos e por mãos que aprenderam, dia após dia, a honrar o que é finito.

No percurso, a sede do GAV se impõe à memória como um sobrado de luz em meio à noite. Fundado em 1994, aquele espaço foi minha escola prática de humanidade. Ali, a autotranscendência deixou de ser conceito para se tornar respiração. Revivo com clareza os rostos dos vinte voluntários: donas de casa, estudantes, desempregados   gente comum que, nas sextas-feiras à noite, transformava o medo da AIDS em abraço, em sopa quente, em escuta sem julgamento. Ali aprendemos, sem tratados, que a vida se expande quando se doa. Onde havia estigma, plantávamos presença. Onde havia desespero, insistíamos em esperança. O GAV não curava corpos, mas salvava sentidos   e isso, muitas vezes, é a cura mais radical.

A fome, biológica e afetiva, me conduz à Feira da Prata. O salão que procuro não se anuncia com placas, mas o cheiro do bode com cuscuz funciona como uma bússola infalível. Na banca que foi de Dona Socorro, o sabor da terra se oferece sem cerimônia. Por trinta reais, renovo o rosto no corte de cabelo; por quinze, garanto o rito do almoço. Penso na simplicidade abundante da minha cidade, tão distante da lógica inflacionada de Brasília. Aqui, o bode é iguaria nobre e o preço é um pacto de honra. Um aperto de mão sem papel, e um desconto pra um estranho, que sela confiança e fideliza as voltas.

Desço a Nilo Peçanha e o coração se contrai. Onde antes se erguia meu colégio   uma floresta encantada para nós, pequenos diante da grandiosidade das árvores   hoje se estende um vazio de ruínas. Desapareceram as construções, as sombras generosas, os bancos improvisados. Resta o silêncio de um terreno baldio. Mas fecho os olhos e ecoam nossas vozes infantis, correndo pelos corredores, rindo alto, acreditando que o mundo cabia, intacto, em uma tarde qualquer. Sinto um impulso quase físico de entrar, recolher um punhado daquela terra e guardá-lo no bolso. Não é sujeira. É relíquia. Testemunha silenciosa. Fragmento vivo do menino que fui.

A rua Dom Pedro II se desenrola diante de mim como um pergaminho da minha existência. Em seu curto quilômetro, ela condensa uma enciclopédia de vida. Foi ali que nasci. Ali que aprendi a nadar no Sesi, desafiando o medo da água com braçadas desengonçadas. Ali vivi o amor, o casamento, a construção de um lar com Joane e a chegada dos filhos. E ali também enfrentei a geografia do luto, o divórcio doze anos depois, quando a casa precisou aprender a pulsar em outro ritmo. Nessa mesma rua, a dor física me visitou com brutalidade, no acidente de moto que quase rompeu o fio da vida. O Hospital Francisco Brasileiro, testemunha daquele susto, ainda me observa de longe. E, logo adiante, a Igreja do Rosário: palco da minha fé em construção. Fui coroinha, sonhei ser padre, liderei jovens. Cada esquina dessa rua tem textura, tom, aroma e voz. E todas, sem exceção, ainda sussurram meu nome.



Ao chegar em casa, o ciclo se fecha com a ternura cotidiana de Dona Celina. O cheiro que me recebe não é apenas de comida: é de juventude condensada. É de tempo amorosamente estocado. Celina, nosso patrimônio afetivo imaterial, que por trinta e cinco anos teceu cuidados invisíveis na trama de nosso lar, preparou, como quem decifra almas sem perguntas, a tríade sagrada das minhas gostosuras fundadoras   três pratos que marcaram minha juventude e que, juntos, narram mais da minha história do que qualquer crônica. A farofa de ovos, simples e reconfortante, bálsamo para dias difíceis. O cozido de carne com pirão, espesso e quente, alimento de sustância e presença, que segura o corpo e ancorava o coração. E, para a celebração, a pizza de liquidificador   improviso generoso e festivo, símbolo dos dias em que a alegria não precisava de motivo para ser convidada. Celina fez os três. Num ato mudo que diz: "Eu me lembro de você inteiro." Entre um café e outro, ela me surpreende ao perguntar pelo meu livro novo. Quer um exemplar. E, aquele pedido tão atencioso, simples, cotidiano e profundamente amoroso, validou toda a minha travessia. Seu interesse pela minha obra foi um abraço na alma, daqueles que não fazem ruído, mas sustentam; um reconhecimento que vale mais que qualquer láurea.

Aos 61 anos, como psicólogo e observador da alma humana, compreendo que somos, cada um de nós, um território vivo. Somos moldados pela geografia que habitamos e, ao mesmo tempo, a moldamos com a topografia de nossas histórias. Criamos conexões de sentido que transcendem o concreto e o asfalto. As ruas do Bairro da Prata não são apenas vias públicas: são artérias do meu próprio corpo, veias por onde corre o sangue da memória. Revisitar esses caminhos não é saudosismo estéril; é oxigenação existencial. A Logoterapia ensina que o passado é um celeiro inexpugnável: nada se perde, tudo se transforma em sentido vivido. Essas memórias nos humanizam, nos desaceleram, nos arrancam do piloto automático e nos sussurram que a vida é feita de encontros, sabores, dores atravessadas e vozes que, mesmo em ruínas, nunca cessam seu canto.

Convidou você, leitor amigo, a empreender essa mesma peregrinação sagrada. Caminhe pelas ruas da sua infância. Pronúncia as esquinas da sua história. Que aromas elas guardam? Que perdas e amores ficaram gravados naquelas calçadas? Permita-se recolher a areia de suas próprias ruínas. Você descobrirá que, no grande mosaico da vida, cada fragmento de memória é um tijolo indispensável na construção do seu sentido de ser. Resgatar a geografia interior é, no fundo, um ato de reconciliação consigo mesmo   e a forma mais delicada de aprender a amar, com doçura e respeito, a pessoa que se tornou.

Ricardo de Faria Barros


Psicólogo | Especialista em Psicologia Positiva e Logoterapia

 


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

A Madrugada em que o Curral Aqueceu o Mundo


Meu nome é Ricardo. Aos sessenta e um anos, habito a longelescência: o tempo em que o corpo conhece o cansaço da lida, mas a alma mantém o vigor de quem ainda espera o milagre na próxima ordenha. Sou psicólogo da logoterapia e trabalho com a longevidade, mas aprendi o que é ser humano no cheiro do curral, entre o vapor do leite quente e o mofo do ressentimento.

Naquela madrugada de dezembro, o frio da Cisjordânia era uma lâmina. Caminhei dez quilômetros até a terra do senhor Enoque com o peito apertado; minha pequena Sofia ardia em febre por uma dor de ouvido. Eu não queria estar ali, mas precisava dos meus quatro queijos.

A casa de Enoque era um monumento à estagnação. Ao entrar na cozinha, o ar era denso, impregnado com um cheiro de vida que não se renovou. Os cômodos eram cavernas escuras, onde o pó sobre os móveis parecia contar os dias desde que a alegria fora exilada. Enoque estava lá, uma silhueta encurvada contra a penumbra.

— Tem gente no curral — disse ele, a voz seca como palha de milho. — Um casal. Ela, quase parindo. Não quis abrir minha casa. O quarto de minha esposa continua fechado, Ricardo. Trancado com o luto e o cheiro do tempo. Mandei que deitassem na sujeira. Se quiserem se abrigar, que usem o calor das vacas.

Enoque não era mau; era enlutado. Mas o luto dele apodreceu. Ele preferia a segurança estéril de uma casa morta à "invasão" da vida nova.

Fui para o curral e o cenário era outro. Ali, o ar cheirava a esterco fresco, feno seco e o hálito doce das vacas. O milagre operava na simplicidade: a vaca Estrela, geralmente arredia, estava ajoelhada em reverência. O bebê dormia no cocho de madeira, onde o cheiro do colostro se misturava ao perfume da palha limpa. Maria me deu o unguento que curou Sofia, e José, o marceneiro, assumiu minha ordenha. Senti o calor do leite batendo no balde de zinco — o som da vida que insiste em alimentar o mundo.

Corri para casa para salvar Sofia. Mal o remédio agiu, ouvi batidas urgentes. Eram três homens majestosos, montados em camelos cujos arreios de couro cheiravam a especiarias distantes. Estavam desorientados.

— Buscamos o Menino — disse Baltazar. — Mas o sol nasceu e a Estrela da Guia sumiu. Sem ela, estamos perdidos no caminho e na alma. O sentido nos fugiu.

— Talvez o Menino tenha nascido hoje — respondi, com a autoridade de quem viu o impossível. — Vi a vaca Estrela ajoelhar. Vi o unguento curar minha filha. Se buscam o sagrado, ele não está nas estalagens, mas no curral de Enoque.

Eles ficaram extasiados. A alma deles, antes desértica, floresceu. Convidei-os a entrar e servimos café, pão e meu queijo — aquele queijo que tem o tempero do suor e da honestidade. Ao saberem que minha Joana estava fora, fazendo diárias sob o sol causticante, entregaram-me um perfume raríssimo.

— Para ela, Ricardo. Pelo perfume da sua dedicação.

Voltamos ao curral. Eu, meus filhos e os magos. Maria recebeu a seda magnífica, mas ao saber da nossa Joana, partiu o tecido ao meio com as mãos firmes: "Metade para o meu filho, metade para a beleza da sua esposa".

O curral tornou-se um templo de alegria terrena. O bezerro da Estrela, em um surto de vitalidade, começou um "pega-pega" saltitante com os camelos. O som dos cascos na terra batida, o mugir suave das vacas e o riso das crianças criavam uma sinfonia de vida plena. Ofereci mais queijo aos senhores, que comiam com as mãos, celebrando a simplicidade.

E Enoque? Ele continuava na janela daquela casa pesada.

Ele via o brilho da seda refletir no vidro empoeirado, sentia o aroma do perfume atravessar as frestas da madeira velha, mas não descia. Ele tinha as chaves da casa, mas nós tínhamos as chaves da vida. Ele guardava a ordem do museu; nós celebrávamos a desordem do milagre.

Naquela madrugada, entendi que o Natal não força portas. Ele nasce onde há coragem para abrir a janela, onde o cheiro do campo vence o mofo do luto, e onde alguém, mesmo cansado, ainda consegue transformar o pouco que tem no banquete que o mundo tanto busca.


terça-feira, 16 de dezembro de 2025

O Disjuntor da Vida: Uma Lição Sobre Luz e Perspectiva



Há um momento que me é particularmente precioso. Acontece logo depois que desligo uma chamada com minha mãe. Eu me recosto, talvez em minha rede gostosa como agora, e saboreio o calor que a conversa deixa no coração. É um aquecimento suave, um eco de afeto que nos lembra de onde viemos e dos laços que nos sustentam. Minha mãe, com seus 87 anos, mora em Campina Grande-PB, e eu, aqui em Brasília, encurtamos distâncias através da voz. E foi numa dessas ligações, que começou com a sombra de um problema, que ela me presenteou com uma das mais belas e simples metáforas sobre a vida que já ouvi.

Ela me ligou resoluta, usando os dados móveis do celular. "Meu filho", disse ela, com a voz carregada de uma preocupação prática, "a internet não funciona, o modem está apagado e dezesseis lâmpadas da casa não acendem". A casa estava num verdadeiro blackout, com exceção de um único aparelho que resistia: a geladeira. A causa, para ela, era óbvia e desoladora. Na noite anterior, um carro havia batido no poste da rua, e a companhia de energia ainda fazia os reparos. A conclusão, reforçada por uma amiga, era lógica e terrível: quando a energia foi restabelecida, a sobrecarga deve ter queimado tudo. A geladeira, por algum milagre, sobrevivera.

Na mente dela, um roteiro exaustivo já se desenrolava. Ela se via mais tarde, enfrentando filas e burocracias na companhia elétrica para abrir um processo de ressarcimento pelos itens queimados. A casa às escuras era apenas o primeiro ato de um drama que prometia ser longo, cansativo e desgastante. Era a impotência diante de um problema que parecia ter vindo de fora e causado um dano irreversível.

Enquanto ouvia seu relato, uma imagem de meu pai, de anos atrás, me veio à mente com clareza. Lembrei de seu cuidado ao construir aquela casa, instalando um quadro de disjuntor com uma chave para cada área: uma para as luzes, outra para a geladeira, outra para certas tomadas. A solução para o grande apagão talvez não estivesse na companhia elétrica, mas a poucos passos de onde ela estava.

"Ô, mamãe", perguntei com calma, tentando furar o bloqueio da preocupação. "Você já olhou o disjuntor?". Ela pensou naquele quadro principal, lá no quintal, mas eu a guiei. "Não, mãe, aquele atrás da porta da cozinha...". Uma pausa. "Ah, eu sei onde é", ela respondeu. "Vá olhar. Pode ser só que o disjuntor das luzes tenha caído". Minha sugestão era tão simples que soava quase ingênua diante da catástrofe que ela descrevia. Ela concordou em verificar.

Não se passaram cinco minutos. O telefone tocou novamente. Era ela, mas a voz era outra. O peso havia sumido, substituído por uma alegria que transbordava na linha.

"Meu filho, deu certo. Era o disjuntor. Tem luz em todo canto. A minha alma clareou. Agora a vida iluminou novamente."

Essa frase, dita com o alívio de quem se livra de um fardo imenso, ecoou dentro de mim. Ela não disse apenas que as luzes voltaram. A alegria era tão grande que a casa com "luz em todo canto" se tornou a metáfora imediata para o seu estado de espírito. Ela disse que a vida dela iluminou. Naquele instante, entendi que a escuridão das lâmpadas era um reflexo da escuridão que a preocupação lança sobre a alma. Ao mover uma pequena chave de plástico, ela não apenas restaurou a eletricidade, mas também desanuviou a mente, dissipou o medo da burocracia e reacendeu sua paz de espírito.

E então, me pergunto, e pergunto a vocês: quantas vezes em nossa vida o que está faltando é apenas ligar um disjuntor? Quantas vezes enfrentamos um "blackout" emocional, profissional ou relacional e imediatamente declaramos a perda como definitiva? "Queimou tudo", dizemos. "Não tem mais jeito".

Nossa tendência, quando imersos no problema, é culpar o fator externo — "foi a batida que derrubou o poste" — e usar essa causa para justificar nossa paralisia. A nossa própria lógica, tão útil em tantos momentos, torna-se enviesada. É nesse estado de "aperreio" que nossa lógica se deforma. A angústia nos cega para as soluções simples, nos convencendo de que a única saída é a mais complexa e dolorosa. Estamos tão focados na complexidade do apagão que não nos lembramos de verificar o interruptor que mora logo ali, "atrás da porta".

Foi a minha perspectiva externa, livre da angústia do momento, que me permitiu lembrar do disjuntor que meu pai instalou. Minha mãe, no seu aperreio, não conseguiu acessá-lo em sua memória. Isso nos ensina algo fundamental sobre a jornada, especialmente na maturidade: o valor inestimável de um olhar amigo.

Quando compartilhamos nossas dores e preocupações com alguém de confiança, permitimos que essa pessoa olhe para nossa situação de um outro ângulo. Esse amigo pode ser aquele que nos diz: "E se você olhasse o disjuntor?". Ele não resolve o problema por nós, mas aponta para a chave que não estamos vendo. Esse "disjuntor" pode ser uma mudança de hábito, uma alteração de comportamento, uma nova perspectiva sobre um velho problema. Ter essa rede de apoio é uma das ferramentas mais poderosas para a nossa saúde mental e bem-estar. É o que nos ajuda a encontrar o caminho quando nossa própria lógica nos deixa no escuro.

A história da minha mãe nos oferece um pequeno manual para quando a vida parecer apagar as luzes. Podemos resumi-lo em quatro passos simples:

Pause Antes de Catastrofizar Quando um problema surgir, respire fundo. A primeira conclusão, especialmente quando estamos sob estresse, costuma ser a mais negativa. Questione esse primeiro pensamento. Será que "queimou tudo" mesmo, ou há outra possibilidade?

Procure a Solução Simples Primeiro Antes de se preparar para a batalha mais complexa, procure a "solução atrás da porta". Qual é a ação mais simples que você pode tomar agora? Muitas vezes, o caminho mais curto é o mais eficaz.

Peça um Olhar de Fora Não hesite em compartilhar suas preocupações com um amigo, um familiar, um colega de confiança. Explicar o problema para outra pessoa pode, por si só, clarear suas ideias. E a perspectiva dela pode revelar o "disjuntor" que você não estava vendo.

Identifique Seus Disjuntores Faça uma reflexão. Que áreas da sua vida parecem estar no escuro? Quais são os "disjuntores" internos — hábitos, pensamentos, comportamentos — que você talvez precise "religar" para que tudo funcione de uma forma diferente e mais iluminada?


Meus caros colegas do projeto 70+, a lição que o disjuntor da minha mãe nos traz é de uma esperança imensa. Ela nos lembra que, mesmo quando o mundo parece escuro e as soluções, distantes, o poder de iluminar nossa vida muitas vezes está ao alcance de nossa mão. Está em uma pequena chave atrás da porta, em uma pergunta simples a um amigo, em uma pausa para respirar antes de assumir o pior.

Que possamos nos ajudar a encontrar nossos disjuntores internos e, com coragem e um pouco de ajuda, religá-los sempre que necessário. Lembrem-se: antes de se convencerem da catástrofe, deem uma olhada atrás da porta. A solução pode ser mais simples do que o nosso "aperreio" nos deixa acreditar.

Um grande abraço, 
Ricardo de Faria Barros, colega aposentado do BB e psicólogo.

8º Passo para Felicidade: SEs atrás e QUANDOs ao lado (Ricardo de Faria Barros)

  Há dois perigos silenciosos que rondam a felicidade ao longo da vida — e se tornam ainda mais nocivos na maturidade e na longevidade. Eles...